Toda escolha toma partido.

Entre valores herdados, convicções e interesses, nossas escolhas revelam o que consideramos importante, aquilo que estamos dispostos a tolerar e o mundo que ajudamos a produzir.

 

Depois de uma eleição, costumamos perguntar o que o resultado revela sobre um país. Tenho pensado também em outra escala: o que nossas escolhas dizem sobre nós?

O voto oferece um exemplo particularmente expressivo porque reúne interesses, valores, expectativas e formas diferentes de compreender a vida em sociedade. Reduzir a identidade de alguém a uma única decisão seria intelectualmente pobre. Ignorar o significado ético e político dessa decisão, porém, seria igualmente equivocado. Nossas escolhas não acontecem fora do mundo; elas participam dele e produzem consequências que nem sempre recaem sobre quem decidiu.

Escolher parece um gesto individual, mas nossas convicções têm história: educação, vínculos afetivos, condição social, experiências e pertencimento cultural interferem no modo como interpretamos a realidade. Há crenças que herdamos sem perceber e outras às quais permanecemos fiéis porque abandoná-las ameaçaria a imagem que fazemos de nós mesmos.

Por isso, investigar a origem de uma escolha exige mais do que declarar uma opinião. Exige também reconhecer influências, interesses e contradições, inclusive quando o exame coloca em dúvida aquilo que considerávamos uma certeza.

 

Liberdade sem álibi.

O filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905–1980) – olha ele aqui de novo! – oferece um ponto de partida exigente para essa discussão. Em O existencialismo é um humanismo (1946), ele defende que a existência precede a essência: não existe um roteiro pronto que determine, de antemão, o que seremos. Somos também aquilo que fazemos com as possibilidades de nossa existência. Sartre não está dizendo que todos dispõem das mesmas condições de escolha. As circunstâncias materiais e históricas importam. Seu argumento é que não podemos atribuir integralmente a elas a autoria dos nossos atos, como se jamais participássemos das decisões que tomamos.

Há outra provocação nessa filosofia: ao escolher para si, cada pessoa afirma uma imagem da humanidade que considera desejável. Não significa que sua decisão seja boa para todos, e sim que nela existe uma tomada de posição sobre o que merece ser valorizado. Uma escolha pode priorizar segurança, liberdade, igualdade, tradição ou prosperidade; pode também expor o que estamos dispostos a negociar para obter aquilo que desejamos.

| Interessa observar menos a lista de valores que proclamamos e mais a hierarquia que aparece quando eles entram em conflito.|

 

Quando o preço da escolha recai sobre o outro.

A hierarquia de valores se torna especialmente reveladora quando o benefício de uma escolha depende do prejuízo de outras pessoas. É possível discordar honestamente sobre políticas públicas, prioridades econômicas e estratégias de governo. Mas a divergência adquire outra natureza quando passa a admitir a humilhação, a exclusão ou a restrição de direitos de determinados grupos como preço aceitável de uma vitória. Estamos diante de algo que ultrapassa as diferenças de preferências: uma decisão sobre quais vidas consideramos merecedoras de proteção, respeito e reconhecimento.

Também existe uma diferença moral entre desconhecer as consequências de uma escolha e conhecê-las, ainda que parcialmente, e decidir ignorá-las. A primeira situação pede informação, reflexão e disposição para rever posições. A segunda exige enfrentar uma pergunta mais incômoda: quanto sofrimento alheio estamos dispostos a tolerar para preservar nossos interesses ou nossas lealdades?

Nem sempre conseguimos antecipar todos os efeitos das nossas decisões, mas a incerteza não nos autoriza a abdicar do julgamento.

| A responsabilidade cresce quando os sinais de dano já estão diante de nós. |

 

A imagem que nossas escolhas deixam.

A filósofa e pensadora política Hannah Arendt (1906–1975) acrescenta uma dimensão importante a essa conversa. Em A condição humana (1958), ela examina como revelamos quem somos pela ação e pelo discurso, na convivência com os outros. Essa revelação não depende apenas da imagem que pretendemos transmitir: acontece também na interpretação de quem presencia nossas atitudes.

É nesse ponto que reconheço uma conexão com a marca pessoal e a reputação. Podemos formular narrativas coerentes sobre nossos princípios, mas nossas decisões oferecem evidências públicas sobre aquilo que efetivamente sustentamos.

Isso não significa condenar alguém à identidade de uma escolha passada. Pessoas reconsideram suas posições, aprendem, recuam e amadurecem. Rever uma convicção pode ser demonstração de responsabilidade, sobretudo quando nasce do encontro com fatos, experiências e perspectivas antes desconsideradas. O que merece exame é a diferença entre mudar porque compreendemos melhor a realidade e mudar apenas porque o custo social de determinada posição se tornou inconveniente. Em ambos os casos, o discurso pode ser semelhante; são os atos posteriores que ajudam a esclarecer seu sentido.

Nas eleições e fora delas, continuaremos fazendo escolhas imperfeitas em condições imperfeitas. Ainda assim, não podemos reivindicar autonomia para decidir e, ao mesmo tempo, nos declarar alheios aos efeitos do que apoiamos, legitimamos ou ajudamos a tornar possível.

Se nossas decisões revelam uma visão de mundo, a responsabilidade começa quando aceitamos confrontar essa visão com a vida concreta das pessoas que serão alcançadas por ela.

 

Notas e referências:

ARENDT, Hannah (1906–1975). A condição humana. 2016.

SARTRE, Jean-Paul (1905–1980). O existencialismo é um humanismo. 2014.