Em tempos de polarização, é fácil enxergar a cegueira dos outros. Bem mais difícil é perceber quando nossas próprias convicções começam a funcionar como proteção contra aquilo que não queremos admitir, inclusive na marca pessoal.
O problema costuma estar no outro
Já ouvimos falar na famosa citação do filósofo Jean-Paul Sartre que “o inferno são os outros”. E períodos eleitorais permitem que a passagem torne-se especialmente visível. Pessoas passam a defender opiniões como se defendessem partes de si mesmas. A discordância ganha contornos pessoais, fatos inconvenientes são relativizados e versões muito confortáveis da realidade encontram espaço para prosperar.
Do lado de fora, tudo parece evidente. É fácil identificar incoerência, radicalização, contradição, cegueira.
O problema começa quando admitimos que ninguém está completamente imune a esse mecanismo. E nos perguntamos “será que também faço parte desse grupo?”. E a resposta pode ser “sim”.
Afinal, também somos capazes de selecionar informações, suavizar contradições e reorganizar acontecimentos de forma que eles continuem compatíveis com aquilo que pensamos sobre nós mesmos.
É nesse terreno que aparece o autoengano.
A história que contamos para continuar acreditando em nós mesmos.
No livro A (honesta) verdade sobre a desonestidade, no capítulo chamado “Enganando a nós mesmos”, o psicólogo e economista comportamental Dan Ariely discute justamente nossa capacidade de incorporar versões convenientes da realidade à própria autoimagem.
Nele, o autor cita um dos experimentos apresentados no livro, quando participantes tiveram acesso a respostas que melhoravam artificialmente seu desempenho em um teste. Mais tarde, quando precisaram estimar como se sairiam sem aquela ajuda, parte deles continuou prevendo resultados superiores.
Ou seja, a vantagem circunstancial já havia sido parcialmente assimilada como competência pessoal.
Ariely usa esse tipo de evidência para mostrar algo que pode nos incomodar: podemos distorcer a realidade sem viver a experiência consciente de estar mentindo. Reorganizamos a narrativa até que ela se torne plausível – e útil – para nós mesmos.
| O autoengano começa a ficar perigoso quando a versão que criamos sobre nós mesmos passa a valer mais do que as evidências. |
Anos depois, em um novo livro, Desinformação, Ariely voltou ao tema ao investigar por que pessoas racionais permanecem ligadas a crenças falsas ou pouco sustentáveis. Quanto mais uma crença se mistura à identidade, às relações e aos investimentos emocionais já realizados, maior tende a ser a resistência em abandoná-la.
Mudar de ideia deixa de significar apenas rever uma opinião. Pode parecer uma ameaça à própria coerência.
E o que isso tem a ver com marca pessoal?
Muito.
Grande parte do trabalho de gestão de marca pessoal depende da capacidade de perceber a distância entre três territórios: quem pensamos ser, aquilo que deliberadamente projetamos e o que os outros efetivamente percebem.
Essa distância raramente é confortável.
Uma pessoa pode se considerar aberta ao diálogo e ser percebida como inflexível. Pode se julgar uma excelente comunicadora e não conseguir ser compreendida. Pode acreditar que transmite segurança enquanto os outros leem arrogância. Pode se definir como uma liderança generosa e, ainda assim, produzir medo na equipe.
Nenhuma autodefinição é suficiente para resolver essa discrepância.
O problema se agrava quando toda crítica precisa ser neutralizada para que a narrativa pessoal continue de pé.
A pessoa que atribui qualquer resistência à inveja, à incompetência alheia ou à incapacidade dos outros de compreendê-la já não está apenas defendendo a autoestima. Está comprometendo a própria capacidade de ler a realidade.
E isso produz consequências reputacionais.
O erro do autoconhecimento sem confronto.
Falamos muito em autoconhecimento como se ele fosse uma espécie de inventário pessoal: valores, talentos, forças, propósito, competências.
Só que conhecer a si mesmo envolve material bem menos agradável.
Inclui reconhecer padrões ruins, perceber contradições, receber feedbacks que não combinam com a autoimagem e admitir que algumas características das quais nos orgulhamos não são percebidas da mesma forma pelos outros.
Para quem trabalha a própria marca pessoal, isso é particularmente importante. Reputação não nasce da intenção. Ela se forma na interpretação social acumulada.
É possível ter clareza sobre aquilo que se deseja comunicar e, ainda assim, produzir outro efeito.
Também é possível mudar de opinião, rever escolhas, reposicionar discursos. Isso não enfraquece necessariamente uma marca pessoal. A rigidez, muitas vezes, cobra um preço maior.
O risco está em preservar uma narrativa apenas porque já investimos demais nela.
Uma marca pessoal madura precisa suportar a possibilidade de estar errada sobre si mesma. E o autoengano prospera justamente onde essa possibilidade deixa de existir.
Notas e referências:
ARIELY, Dan. A (honesta) verdade sobre a desonestidade: como mentimos para todo mundo, especialmente para nós mesmos. 2021.
ARIELY, Dan. Desinformação: o que faz pessoas racionais acreditarem em fake news, teorias da conspiração e outras coisas irracionais. 2024.