A sua ética sobreviveria à invisibilidade?

O Anel de Giges, narrado por Platão há mais de dois mil anos, ainda nos coloca diante de uma pergunta desconfortável:

nossa ética nasce de convicções ou depende da possibilidade de sermos vistos?

 

No Livro II de A República, Platão conta, pela voz de Glauco, a história do ancestral de Giges, um pastor que encontra um anel capaz de torná-lo invisível.

Ao descobrir o poder que tem nas mãos, Giges percebe também outra coisa: pode agir sem ser responsabilizado pelo que faz. Usa então sua invisibilidade para se aproximar da rainha, matar o rei e tomar o reino.

A história é fantástica. A pergunta que ela produz, não.

 

| Se ninguém pudesse descobrir o que você fez, você continuaria fazendo a mesma escolha? |

 

O que sobra quando ninguém está olhando?

Há algo profundamente contemporâneo no dilema de Giges.

É relativamente simples defender valores quando existem regras claras, testemunhas, possibilidade de punição e algum risco para a própria reputação.

Mais interessante é observar o que fazemos quando esses controles desaparecem.

Talvez por isso a alegoria continue atravessando séculos. Ela não pergunta apenas se alguém cometeria um crime caso pudesse ficar invisível. Pergunta quanto daquilo que chamamos de princípio depende, na prática, do olhar dos outros.

 

| A ética fica mais interessante quando não há plateia. |

 

Não precisamos de um anel mágico.

Nossa vida está cheia de pequenas invisibilidades:

Uma informação que ninguém saberia que você utilizou.
Um erro financeiro a seu favor que poderia simplesmente passar despercebido.
Uma ideia de outra pessoa que você poderia apresentar como sua.
Uma conversa confidencial que renderia uma ótima história.
Uma regra flexibilizada porque, naquele caso específico, cumpri-la seria inconveniente.

É nesse território que o livro Somos todos canalhas, de Clóvis de Barros Filho e Júlio Pompeu, se aproxima de maneira especialmente interessante do dilema de Platão.

O título é deliberadamente provocativo. Não se trata de classificar seres humanos entre bons e maus, éticos e antiéticos, virtuosos e canalhas.

Trata-se de reconhecer algo bem menos confortável: pessoas que defendem valores também são capazes de traí-los quando as circunstâncias lhes parecem suficientemente favoráveis.

A ética, nesse sentido, não está apenas naquilo que afirmamos defender. Está, fundamentalmente, naquilo que escolhemos fazer quando defender um princípio nos custa alguma coisa.

 

As pequenas autorizações que nos damos.

Quase ninguém acorda de manhã decidindo deliberadamente ser antiético, pois o processo costuma ser mais complexo. A gente diz pra si mesma que é só dessa vez, que não vai prejudicar ninguém, que “todo mundo faz” ou até que se não formos nós a fazer, alguém o fará.

É justamente aqui que a psicologia acrescenta uma camada importante à filosofia.

Albert Bandura chamou de desengajamento moral o conjunto de mecanismos pelos quais conseguimos temporariamente afastar nossos próprios padrões éticos para realizar determinadas ações sem enfrentar toda a culpa ou autocensura que elas poderiam produzir.

Minimizamos consequências. Diluímos responsabilidades. Comparamos nossa atitude com algo muito pior. Mudamos as palavras utilizadas para descrevê-la.

Não eliminamos necessariamente nossos valores. Nós os colocamos entre parênteses.

| Talvez uma das maiores habilidades humanas seja criar boas justificativas para as exceções que concedemos a nós mesmos. |

 

Ética ou administração da imagem?

Há ainda outra dimensão dessa discussão que me interessa particularmente: vivemos numa época em que valores também fazem parte da nossa apresentação pública.

Empresas anunciam princípios. Profissionais tornam seus posicionamentos visíveis. Pessoas comunicam causas, crenças, preocupações sociais, compromissos.

Nada disso é irrelevante.

Mas existe uma diferença importante entre ter uma conduta orientada por valores e comunicar sinais de virtude. Temos que agir corretamente porque acreditamos naquela escolha. Mas também porque tememos punição, constrangimento ou dano à nossa imagem.

Externamente, os comportamentos podem até parecer iguais, mas internamente, o princípio que os orienta não é o mesmo.

Reputação depende do olhar do outro. Ética não pode depender apenas dele.

E talvez seja justamente essa diferença que o Anel de Giges torna tão evidente. Ou seja, quando ninguém nos vê, desaparece a vantagem reputacional da boa conduta. O que sobra é a escolha.

 

A ética das pequenas coisas.

Temos alguma facilidade para reconhecer dilemas éticos quando eles aparecem em grandes proporções: fraudes, corrupção, abuso de poder, mentiras públicas, escândalos (alô, Brasil!).

Esses episódios são importantes, naturalmente. Mas podem produzir uma ilusão confortável: a de que problemas éticos pertencem sempre a pessoas muito diferentes de nós. Mas a verdade é que a vida cotidiana costuma ser menos espetacular.

Ética aparece quando podemos tirar vantagem e provavelmente ninguém descobrirá.

Quando temos poder sobre alguém que não pode nos devolver o gesto.

Quando omitir determinada informação nos favorece.

Quando cumprir aquilo em que acreditamos cobra um preço.

É nesse ponto que a provocação de Somos todos canalhas ganhe força: a canalhice não precisa ser entendida como identidade. Pode aparecer como possibilidade humana.

E isso não significa relativizar tudo nem concluir que valores são inúteis porque somos contraditórios. Pelo contrário, ética genuína não exige uma espécie de pureza moral impossível. Exige alguma consciência sobre nossas contradições e, principalmente, atenção às justificativas que criamos quando nossos interesses entram em conflito com nossos princípios.

O Anel de Giges não precisa responder se somos bons ou maus. Ele pode nos deixar apenas uma pergunta e muito suficiente: se ninguém soubesse, ninguém elogiasse, ninguém punisse e sua reputação permanecesse intacta, você faria exatamente a mesma escolha?

Pois bem, nossa resposta diz mais sobre nossa ética do que tudo aquilo que costumamos dizer sobre ela.

 

Notas e referências:

PLATÃO. A República. Livro II, 359b–360b.

BARROS FILHO, Clóvis de; POMPEU, Júlio. Somos todos canalhas: filosofia para uma sociedade em busca de valores.

AZZI, Roberta Gurgel. Desengajamento moral na perspectiva da teoria social cognitiva